Socorro... Como assim socorro? Ele estava pedindo ajuda a quem? A mim? Não, ele está pedindo ajuda a qualquer maluco que se atrever a abrir a cela dele. Douglas me puxou para trás, pensando que eu estava assustada com aquela coisa, mas logo tirei sua mão de meu ombro e quase fui atropelada por Michelle. Ela abria seu caderno e saia anotando, parecia aquelas biólogas malucas de desenho animado que ficam falando rápido e analisando o espécime como se tivesse descoberto a américa. Eu juro para vocês, o Rake esbugalhou os olhos de medo quando viu a garota retardada “brotando do chão”. Até eu teria.
Ao cair da noite, fiquei deitada em minha cama olhando para o teto. Os grilos cantavam sua canção escondidos nas plantas do jardim, uma leve brisa fazia as cortinas da janela balançar e aos poucos dava para se ver os vagalumes piscando pela rua. Os quatro Pittbulls já estavam soltos, mas eu podia ir lá fora a hora que eu bem entendesse. Estava completamente sem sono. O Rake continuava gritando lá da praça pública, mas parecia que era a única que escutava ele pedindo socorro. Isso estava me incomodando, não sei o que deu em mim, mas tive a brilhante ideia de ir até lá de skate. Peguei um casaco preto e vesti, continuei com a calça de moletom e peguei o skate ao lado da cama. Logo saí de fininho, pois meu pai nunca iria aceitar que sua queridinha saia, muito menos sem a mãe estar em casa.
Abri a porta e senti aquela brisa fria bater em meu rosto, dando-me um calafrio. Os cães me viram e não fizeram nada, continuaram atentos ao muro e a qualquer coisa que se mexia. Acho que não valeria a pena levar um pittbull comigo... A última vez que fiz isso acabei com metade de meu corpo ralado por causa do maldito que saiu correndo. Use a cabeça Evellyn, use a cabeça. Voltei e fui para o quarto do meu pai para pegar um dos revólveres que ele guarda no criado-mudo. Ao sair de casa, tranquei o portão, larguei o skate no chão, subi nele e fui pela calçada em direção a praça pública. Havia algumas pessoas na rua ainda, o que me dava conforto, pois eu não era a única opção para nenhuma lenda. Era 22h:00min ainda, o toque de recolher da cidade é 00h:00min, mas todo cuidado era pouco...
Resolvi pegar um atalho e virei à esquina para uma rua totalmente vazia. Parabéns gênia, agora você é um alvo fácil. Apertei o passo para chegar logo ao fim da rua que parecia estar mais movimentado, mas para minha alegria havia um rapaz vindo logo atrás de mim. Ele escondia seu rosto com o capuz do casaco branco e não dava para ver seu rosto. Não queria puxar assunto, mas já era bom saber que havia alguém ali. Minhas mãos estavam nos bolsos do casaco, sendo que a direita segurava a arma. Virei à esquina e me deparei com absolutamente nada, estava sozinha de novo. Aquele rapaz passou por mim e nem me disse boa noite, talvez estivesse preocupado com alguma coisa ou era um grande mal educado. Ele andava bem rápido, talvez estivesse querendo voltar para casa.
Uma minivan entra na rua em alta velocidade, não entendi o motivo da pressa, mas tinha certeza de que eles não estavam notando o garoto. Tentei chamar atenção dele, mas ele não respondia, continuava olhando para baixo. Apertei o passo, a van não acendeu os faróis, ela queria atropelar o rapaz. Resolvi bancar a atriz de Hollywood e consegui empurrar o garoto para a calçada, derrubando nós dois no chão.
- TÁ MALUCO GAROTO? O QUE DEU EM... – A van acendeu os faróis, acelerando de uma vez só a van para cima da gente, aquilo não fazia sentido, mas eu simplesmente agarrei a mão do garoto e saí correndo pela rua, sua voz parecia um sussurro, não consegui identificar de maneira alguma do que se tratava. No mínimo deveria ser “Diminua o passo”. A van vinha rápido, eu não estava com muitas opções de fuga. Meus pés ardiam como fogo e imagino que os dele também. Ele puxou meu braço com força e seguiu por uma rua sem saída, coisa um tanto idiota em minha opinião – Para onde você quer fugir?!? – Perguntei desesperada – Cale a boca e me siga. – Ele respondeu e finalmente pude escutar sua voz rouca, parecia que estava doente. Ele pulou no quintal de uma casa, me arrastando junto. Ele saltou a cerca e disse que ou era isso ou eles me pegariam por algum motivo que não ia prestar. Não estava gostando do que estava fazendo. Aos poucos me arrependia de ter me metido nisso, afinal, o único local que não circula carro é no bosque... E vocês sabem muito bem o que tem lá, te garanto que lobo mau é para os fracos.
- Eles vão nos pegar?! – Gritei- Quem são eles?!
- Te garanto que não é a polícia – Ele olhou para todos os lados – Merda estamos presos...
Ficamos encurralados em um ferro velho atrás da casa, os homens começaram a sair dos carros e a arrastar correntes e armas estranhas. Espere... Como assim? Só se... Sim... Aquele garoto era uma lenda, sendo que eu não conseguia reconhecer qual era. Agora que eu já estava ali, tinha que terminar o serviço – Por aqui! – Gritei a ele, eu vi um cano de concreto que dava para atravessar para o outro lado, mas não garantia o que havia do outro lado. – Porque está me ajudando? – Ele me perguntou – Não sei... Eu sinto que é o certo. – Ele ficou intrigado com o que eu disse e entrou no cano. – Você nem sabe o que está fazendo. Não sabe com quem está se metendo. – Nós corremos pelo cano escuro, nossas vozes ecoavam e aos poucos fui estranhando a voz do rapaz – Se você fosse mais inteligente, aproveitaria para fugir enquanto há tem... – Eu o interrompi novamente quando o segurei antes de cair dentro do bueiro. – Que diabos de lenda quase morre duas vezes? – Perguntei indignada.
- PARE DE ME SALVAR! O QUE DEU EM VOCÊ? – Ele gritou.
Escutei os passos dos homens ecoando dentro do cano. Não tínhamos muito tempo, ou ele calava a boca e corria dali, ou nós dois éramos pegos. Dava para saltar para o outro lado, então eu dei um jeito de convencê-lo. Saltamos e saímos correndo em direção ao bosque. Jamais senti tanta adrenalina na minha vida, mas falta ainda alguma coisa, eu tinha que saber quem ele era. Nunca me interessei por lendas como Michelle, mas eu já o vi em algum lugar, alguma notícia, do jornal ou da televisão. Diminui o passo e eu o vi se afastar, correndo como uma assombração para o sombrio bosque. Não sabia se valia a pena segui-lo ou não, afinal, já o levei para um lugar seguro para ele. Vi o farol da van vir pela rua de terra que eu estava, agora não tinha jeito, eu tinha que correr atrás dele para me salvar. – Seja lá quem você for! Espere! – Gritei e saí correndo para dentro do bosque.
Estava escuro, dentro do bosque o clima é bem mais úmido e frio do que na rua. Eu tentava só seguir em frente, sem virar para esquerda ou direita para não me perder, mas a quem eu quero enganar? Essa foi a maior burrice que eu já fiz. Olhava para os lados cautelosamente, evitando olhar mais a fundo para não gritar. O medo corria pelas minhas veias, fazendo com que meus olhos ficassem esbugalhados e minhas mãos gelassem. O revólver ainda estava bem seguro, mas a chance disso causar algum ferimento em algum desses seres presentes aqui é mínimo. Escutei algo vindo atrás de mim e senti meu coração pulsar forte, estava entrando em desespero. Avistei uma árvore com raízes altas e me escondi ali dentro, dava para fingir que era uma gaiola, ninguém conseguiria me tirar dali tão fácil. Tentei respirar baixo e logo reconheci os pés do rapaz que eu salvei.
- É você garota? – Ele perguntou, mas não tive coragem de responder. – Você tem noção do que fez? De quem você salvou a vida? – Não consegui responder, somente me encolhi e abracei as pernas. – Vou mostrar quem sou, pensei que você tivesse noção... – Ele agachou e deu um grito ao tirar o capuz – DE QUE VOCÊ SALVOU A VIDA DE JEFF THE KILLER! – Meu coração parou, o que diabos eu fiz? – E AGORA? TEM CORAGEM DE ME AJUDAR DE NOVO?
- Tenho. – Respondi baixo, por incrível que pareça, tinha coragem de respondê-lo. – Mentira... – Ele forçou aquele sorriso rasgado. – Verdade, pare de sorrir desse jeito, não está vendo que não há nada para rir? – Eu cruzei as pernas e tentei não abusar do que estava falando – Bom, como toda Lenda Urbana, agora você vai erguer a sua faca e vai me fatiar em 5 ou até em 10. – Me aproximei dele tentando esbanjar coragem e ironia, mas na verdade parecia que meu coração ia explodir – Lenta e DO-LO-RO-SA-MEN-TE.
- Não posso. – Respondeu ele ao recuar. Como assim? Será que sou tão sortuda assim? Ele desistiu ou está com preguiça de me tirar dali? - Tenho uma divida com tigo. – Disse ele guardando a faca dentro do bolso do casaco. Havia algo errado, aos poucos, eu fui me acostumando com aquela cara esquisita dele e em nenhum momento ele ameaçou ter aquelas crises de risos assustadoras ou resolveu me deixar mais bonita (Pelo o que eu me lembro, ele tem uma noção de beleza que faz o Sylvester Stallone se sentir a Demi Lovato). Sua voz parecia nítida e calma, parecia até que estava conversando com um... ”Amigo”. – Dívida? – Perguntei.
- Sim, você fez algo que ninguém jamais faria. Um humano jamais faria. – Ele sentou no chão e ficou me olhando com aqueles olhos que não piscam – Não posso te matar, tenho que quitar essa divida.
De meus sonhos, criei meu mundo, de meu mundo, criei um universo, de meu universo, criei paradoxos, dos paradoxos, criei histórias e agora contarei a vocês.
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