Meu coração parou de bater, Michelle vinha correndo e eu bati a porta desesperada. Aquilo era demais para minha cabeça. Eu sabia que ele era louco, mas aquilo era demais. Michelle ficou perguntando sobre o motivo desse nervosismo, tentei responder calmamente e evitei olhar para o armário. Tinha que despistá-la. Entreguei a ela o meu dinheiro do lanche e implorei para que ela comprasse. Como essa doidinha não resiste quando eu imploro de joelhos, ela foi. Abri a porta de supetão, dando um susto nele.
- QUAL... O SEU... PROBLEMA... – Falei pausadamente, ofegante, com o coração a mil.
- Uh... Estava te esperando. – Ele disse rindo.
- VOCÊ ESTÁ NO MEU ARMÁRIO... NA HORA DO RECREIO... DE DIA... PESSOAS... – Ele bagunçou meu cabelo e respondeu rindo com ironia – Ora... Mato quem abrir a boca.
- JEFF! VOCÊ NÃO ESTÁ ENTENDENDO... – Eu estava pronta para ter um troço – ELES VÃO TE PEGAR... QUAL É O SEU PROBLEMA?
- Acho que sou meio doido...
- AH JURA? JURA MESMO? A PONTO DE SE TRANCAR NO ARMÁRIO DE UMA ESTUDANTE PARA ESPERÁ-LA? – Um garoto começou a me observar, logo eu fechei a porta, acenei e sorri como uma psicopata. Ele entrou na biblioteca, assustado com minha expressão. Abri a porta de novo e vi Jeff folheando um livro de matemática meu – Você entende de matemática em? Por Zalgo o que que é isso!? – Ele ria a cada página, como se eu fosse burra.
- Largue minhas coisas... – Eu pedi calmamente.
- Uh... Por quê?
- Vou te ajudar a sair daqui... Ou prefere passar mais um tempinho aí?
- Nope – Ele saltou de lá de dentro, colocando o capuz na cabeça.
Ainda estava muito óbvio, qualquer um que aparecesse ali iria reconhecê-lo. Meu casaco era bem grande, era um casaco que com certeza ficaria bem nele – Vamos trocar os casacos – Sugeri – Eu, trocar de casaco com você? – Ele disse e riu sarcasticamente.
- Anda cara. Meu casaco é preto com uma listra branca na frente, e bem grande! Ninguém vai te reconhecer! Tenho uma máscara aqui, você coloca e eu te mostro um jeito de sair daqui... – Eu tirei meu casaco e entreguei a ele. O maníaco bufou e tirou o casaco dele. Tá aí uma coisa que eu nunca vi, debaixo daquele casaco tem um cara magro, branco a ponto de parecer que foi pintado a mão e vestia uma blusa preta com estampa grande escrito “Fuck”. Deve ser sua palavra favorita. Ele taca o casaco na minha cara rindo – Que foi? Gostou do que viu?
- Babaca... – Resmunguei, vesti o casaco dele e senti um calafrio estranho. Parecia que minha alma tinha fugido de meu corpo, até arfei ao me sentir tonta. Estava usando o casaco de um maníaco, minha ficha ainda não tinha caído. Ele ainda não estava irreconhecível, tinha que esconder aquele rosto. Andar escondendo o rosto com o capuz é bem suspeito. Comecei a revirar uns sacos e caixinhas que eu tinha dentro do armário e achei uma máscara sorridente que Michelle fez para mim. Eu sentia aquela sua respiração abafada, levemente sinistra em meu ombro. Olhei de canto de olho e senti vontade de sair correndo. Não dá para contar a quantidade de vezes que eu tenho vontade de fazer isso. – Por favor... – Um arrepio correu por minha espinha – Pare com isso... – Entreguei a máscara a ele, pedindo para que ele a colocasse. Sem nenhum questionamento, colocou em seu rosto.
- E agora, Boneca? –Ele pôs as mãos nos bolsos – O que você sugere para me tirar daqui?
- BONECA? – Disse indignada. Que direito ele tem de me chamar assim?
Jeff deu uma risadinha marota, logo olhando para os lados, vendo uma garota se aproximar. Segurei a mão dele e comecei a correr pelo corredor, tinha que tirá-lo dali. Meu colégio é enorme, o que mais tem é porta de saída, mas em colégios muito grandes, sempre há muita gente. Parecia estar em um labirinto, em todo corredor que poderia haver uma saída, havia alguém de prontidão ou algum grupinho de pessoas lanchando. Comecei a me irritar, até que me lembrei da casa vizinha que meu colégio comprou. Ao lado do armazém que fica ao lado da cantina em reforma, há uma porta que está sempre aberta que dá para a casa vizinha. Douglas me mostrou há pouco tempo, acabamos lanchando lá até que um dos zeladores nos encontrou. Poderia levar Jeff sem problema, e para passar despercebido, vamos passar por debaixo da escadaria e logo por trás dos vasos de planta. O plano perfeito! Expliquei o plano a ele, nada respondeu. Só balançou os ombros demonstrando indiferença. Descemos as escadas e passei direto pela Michelle, escutei ela dizer qualquer coisa, mas não identifiquei. Após o corredor das quadras, o levei até debaixo da escada.
- Vamos parar um pouco? – Ele sentou no chão.
- Como assim?! Vamos sair daqui!
- To afim não – Ele deitou e cruzou os braços.
- Ninguém merece – Pensei e sentei ao lado dele – Não acredito que você cansa fácil.
- Não canso – Ele põe um de seus braços sobre seu rosto – Só perdi a vontade de correr.
Michelle chegou como um fantasma, surgiu sem ninguém reparar.
- OIE! QUE QUE ESTÁ ACONTECENDO?
- MICHELLE! – Gritei, já era o nosso disfarce.
- O que você está fazendo aí sozinha? – Ela ficou olhando para os lados, imaginando com quem estava – E... Dá onde veio esse casaco branco?
- E-eu molhei meu casaco preto... Esse estava no meu armário... – Inventei uma desculpa.
- Tá... Porque você está aqui sozinha?
Estranho, como ela não viu... Olhei para o lado e não o vi. Ele sumiu. Jeff, The Killer estava solto na minha escola… Michelle entregou meu lanche em um saquinho, mas eu tinha perdido o apetite. O sinal da escola tocou, tinha aula de educação física agora. Se eu conseguisse driblar o professor, poderia procura-lo.
Toda minha turma se reuniu na quadra aberta, aquela que fica na frente do meu prédio. Não conseguia me concentrar, olhava para todos os lados, ficava atenta a todos os ruídos possíveis. Nada. Por um instante, pensei que ele tinha conseguido fugir sem ninguém ter visto. Meu professor chegou e a aula começou.
Eu, Michelle e Douglas ficamos bem afastados dos outros. Pegamos uma bola de vôlei e ficamos jogando Recorde. Estava muito distraída, a bola acertou minha cabeça umas 10 vezes, ou seja, toda vez que um deles me tacava a bola – Tudo bem com tigo Vivi? – Douglas perguntou preocupado.
- Tudo... Só estou com um pressentimento ruim... – Continuei olhando para os lados.
- Até parece que viu um fantasma. – Michelle tacou a bola para mim novamente, mas desta vez eu segurei.
- Que casaco é esse? – Douglas se aproximou, olhando bem atento. Ele puxou a manga e cheirou, aquilo foi muito estranho, estava me assustando – Isso... Tem cheiro de terra... Sangue... – Ele me olhou com uma expressão bem séria – Onde você conseguiu esse casaco?
- No meu armário... – Alguém chegou por trás de mim, agarrando meus ombros.
- Olá! Te aaaachei! – Era o Jeff, porque ele tinha que aparecer agora – Evellyn, você disse para mim que iria me ajudar a procurar meu celular lá na cantina!
- O-oi... – Fiquei branca de nervoso – Vou te ajudar... Gente, por favor, avisem ao professor que eu fui ao banheiro. – Eles concordaram, mas ficaram um tanto desconfiados. Isso não era bom.
Eu o puxei para o portão ao lado do armazém, logo ele foi à minha frente para abrir a porta. Com uma delicadeza impressionante, ele abriu o portão de ferro enferrujado sem fazer barulho algum. Fiquei impressionada – Como você fez isso? – Perguntei.
- Tive que aprender muitas coisas para me tornar um perfeito assassino. – Nós entramos no quintal da outra casa – Posso tirar essa maldita máscara? Não sei como a Jane ou o Masky aguentam. – Ele levanta um pouco a máscara – Fica abafado e você quase não respira!
- Para alguém que praticamente não tem nariz, pensei que isso não fosse um problema. – Pensei.
A casa estava vazia, conseguimos subir o muro e ele pulou para a rua. Jeff espreguiçou-se e tirou a máscara, tacando para cima e por milagre caiu em minha mão – Finalmente! – Ele disse orgulhoso - Minha coluna estava pedindo arrego.
- Jeff... Você está no meio da rua, de dia. Porque está falando comigo com tamanha naturalidade? – Sentei no muro e fiquei balançando as pernas.
- Vocês se preocupam demais... – Ele tira o capuz, coça a cabeça e o coloca de novo – Quer uma dica? Pare de pensar em consequências. – Jeff se virou para ir embora – Uh... Ainda estou com seu casaco. Gostou de ficar com o meu? – Ele riu.
- Melhor a gente destrocar... – Já estava ficando tonta, aquele casaco possuía uma energia estranha, típica do Jeff – Já estou me sentindo mal.
- Já eu me sinto em um mar de rosa, casaco bem “cheroso”. – Jeff tirou meu casaco e tacou na minha cara. Tirei o casaco dele e taquei nele também, esperando que ele me matasse por tamanho abuso. Acabou que ele tacou o casaco na minha cara de novo. Parecia brincadeira, ele estava brincando comigo? Taquei o casaco novamente e quando tentei vestir o meu, Jeff tacou o dele novamente – Para com isso! – Gritei perdendo a paciência e taquei novamente o casaco. Consegui vestir o meu, adivinhe? Ele tacou de novo.
- O que deu em você? Está brincando? – Taquei de volta e ele vestiu o casaco
- Há ha, só estou de sacanagem com sua cara. – Ele coloca o capuz – Acho hilário você puta da vida! – Jeff saiu andando rindo e eu fiquei o observando até sumir de vista. Minha ficha ainda não tinha caído. Ele... Brincou? Brincar? Jura mesmo? O que deu nele? Será que essa tal dívida está fazendo com que ele mostre seu lado... Vivo? Não... Aquilo não era possível... Lendas... São animais. Pelo menos era o que minha mãe me dizia e é o que meu pai sempre repete. São demônios, não possuem alma. São máquinas mortíferas, nasceram para arruinar a vida de pessoas inocentes. Mas, por um breve instante, uma Lenda brincou com minha cara. E até agora, não demonstrou nenhuma intenção de me matar. O que há de errado com ele?
Quando acabou a aula, fui sozinha para casa. Douglas simplesmente desapareceu e de acordo com Michelle, quando você é convidado pelos Somber Crows, não se pode questionar seus desaparecimentos. Pois eles vão se tornar frequentes. Eu não queria que isso acontecesse. Gosto muito dele... E parar de vê-lo era praticamente um choque. Michelle já estava tentando me convencer que isso era bom para ele. Sempre foi bem habilidoso e sempre nos protegeu. Agora, tem o direito de proteger a cidade e ser chamado de herói. E eu... Estou seguindo todo um caminho para ser chamada de vilã.
Se for falar a verdade... Estou há um passo de me tacar na frente de um ônibus para ver se ele me salva e quita essa dívida. Mas quem garante que Jeff irá ver? Quem garante que ele só está fazendo isso para me dar o bote assim que eu confiar plenamente nele?
Tudo estava me degolando viva.
Ao chegar em casa, fiz carinho em Lumo e dei um jeito de deixa-lo entrar. Limpei suas patas e coloquei fofos sapatinhos. O levei até meu quarto e ele deitou em cima da minha cama. Larguei minha mochila no chão, tirei meu casaco e blusa e taquei no chão, fiz o mesmo com minha calça. Fiquei só com minha roupa íntima. Só assim para eu me sentir “leve”. Minha cabeça estava a mil, precisava me distrair um pouco. Liguei meu sistema de som de porquinho e coloquei uma música de Dubstep bem alto, logo peguei meu laptop. Havia um presentinho em cima dele. Embrulhado em papel dourado, com um laçarote vermelho com listras douradas e com um bilhetinho pendurado. Era da minha mãe.
“Para minha filha,
Para desenhar e escrever suas futuras aventuras!
Ass.: Mamãe.”
Sincero e simpático. Para alguém que simplesmente desaparece todo o dia e só fica em casa direto uma vez ao mês e mesmo assim quase não olha na minha cara por estar ocupada. Futuras aventuras? Como assim “Futuras aventuras?”, “As aventuras de Evellyn no Facebook”? Ela estava brincando com minha cara, assim como Jeff.
Jeff, sua brincadeira me deixou sem palavras. Eu tinha que anotar isso. Abri o presente, rasgando como um animal aquele embrulho a ponto de Lumo levantar a cabeça e ficar me olhando com uma carinha fofa e torta. Como suspeitei. Um caderno de folhas brancas. Era bonito, parecia àqueles cadernos de anotações de quem se aventura por aí. Capa de couro marrom remendado e folhas um pouco amareladas. Peguei uma caneta e um lápis, pulei uma folha, pois ali eu quero escrever alguma coisa que me inspire a continuar escrevendo. Desenhei o Jeff na outra folha, exatamente como eu o vi. Um jovem desleixado. Ao lado, fui escrevendo a forma que ele me tratou, como falou e como agiu enquanto esteve comigo. E no fim do verso da segunda página, escrevi o possível porque para ele me tratar assim. Fechei o caderno e fiquei olhando para sua capa. Havia um espaço que dava para escrever o que bem entendesse. Não sabia o que pôr ali, então coloquei apenas meu nome. Evellyn. Esse seria meu livro... O Livro de Evellyn.
Guardei o caderno na gaveta e me dirigi até a cama. Puxei o lençol e Lumo me deu espaço para eu deitar. Deitei, me cobri e abracei aquele gordo e musculoso cão que tanto me ama e me baba. Precisava relaxar. Fechei meus olhos e fiquei sentindo aquele cheiro de terra molhada do pelo dele, bem parecido com o casaco do Jeff... A última pessoa que você quer ter em mente antes de dormir.
A partir de agora, tudo seria anotado no meu caderno, cada coisa estranha que Jeff fizer. O Livro de Evellyn poderia ser a primeira prova que iria rebater a filosofia ignorante de minha cidade... Mal sabia eu que estava me metendo na maior furada de minha vida.
De meus sonhos, criei meu mundo, de meu mundo, criei um universo, de meu universo, criei paradoxos, dos paradoxos, criei histórias e agora contarei a vocês.
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