Estou ficando mais estranha a cada dia, sabe leitor, meus olhos estavam voltando a doer. Porque estou dizendo isso? Afinal, é normal os olhos de alguém que escreve e lê muito doerem, mas comigo é um pouco mais complicado. Fiquei tão intrigada em contar às besteiras que Jeff começou a fazer comigo, que até esqueci-me de mostrar a vocês como sou. Tenho cabelos negros com alguns fios brancos (sim tenho 16 e já tenho cabelo branco), pele levemente morena e o detalhe mais importante sobre mim: Meus olhos. Eu tenho um olho de cada cor. Tudo por causa de um acidente de carro quando criança, mas meus pais nunca gostaram de comentar nesse assunto, então, não saberia contar a vocês, mas em breve explicarei tudinho. Toda vez que esses meus olhos começavam a doer, meu pai ou minha mãe colocavam um colírio esquisito, que não vende em qualquer lugar, nem sabia dizer qual era o nome. Fazia tempo que isso não doía, mas quando passei a falar com o Jeff, ele voltou a latejar.
O mais estranho, caro leitor, era que parecia que isso estava afetando o maníaco de alguma forma.
Já estava escrevendo nesse meu caderno há mais de um mês. Todo o dia, Jeffrey vinha me visitar. Já estava virando uma rotina. O único problema era que ele não possuía hora, nem lugar certo para aparecer. Se for para colocar aqui todos os lugares que ele já apareceu, não caberia numa folha, pois ele nunca repete lugar. Vou dar alguns exemplos: Armário do zelador; Atrás da máquina de Xerox; Dentro da geladeira (Desligada); Dentro de uma caixa de papelão onde estava um brinquedo novo para as criancinhas babonas (Não entendo como ele não fez a festa) e para completar, a gota que transbordou o copo. NA JANELA DO BANHEIRO FEMININO NA HORA QUE EU ESTAVA TROCANDO MINHA CALÇA JEANS PELA A DE EDUCAÇÃO FÍSICA. O vagabundo ainda tem a coragem de dizer: Bela calcinha de oncinha. Não havia onde enfiar meu rosto após algo tão constrangedor e assustador. Depois de ter colocado a roupa, gritei muito com ele, até a diretora abrir a porta e perguntar o que estava acontecendo. Tive que dar a desculpa de que estava falando com um primo no celular.
A última vez que o vi, ele surgiu de dentro de uma lixeira milagrosamente vazia. Jeff disse que estava ficando sem opção de lugares para surgir de repente como uma alma penada. Não podia sugerir lugares para ele aparecer, pois iria perder a graça (Mas iria me ajudar muito). Sem ter muito o que falar, pediu para que eu o encontrasse exatamente às 17h:30min na rua sem saída que nós quase ficamos encurralados, dentro do cano de concreto que utilizamos como ponte. Não havia nada para fazer naquele horário, Michelle estaria cochilando e Douglas... Ah, nem curtia comentar. Fiquei trancada em meu quarto mexendo no computador, lendo alguns livros e desenhando no caderno para passar o tempo. Assim que deu 17h:00min eu saí de casa a pé (Afinal eu perdi o skate). Segui para a praça pública, fazia tempo que eu não me deslocava para algum lugar diferente. Era sempre Casa-Colégio-Casa. Nos fins de semana, Casa-Michelle-Casa. Ao chegar à praça, escutei um urro. Nem era algo muito alto, parecia mais um gemido. Era o mesmo socorro... Ele ainda me chamava... Fui até a sua gaiola e o vi deitado, olhando para as próprias patas, balançando a cauda para um lado e para outro, sem ter o que fazer. Aquilo era tortura demais... Tinha que admitir.
- Rake... Você... Está me entendendo? – Eu me apoiei na grade que impede que eu encoste na gaiola.
O ser apenas balançou a cabeça, concordando.
- Você está morrendo... Não está?
“Descobriu a América? Estou preso nessa gaiola que nem um animal de show de horrores”.
- Ei... Não precisa ser tão cruel... Eu... Posso te ajudar? Tem como? – Não sabia como eu estava conversando tão naturalmente com ele.
“Me tirar daqui seria uma boa...”
- Você sabe que é difícil... Não é assim que funciona... – Eu paro para pensar – Você deve estar com fome...
“Se eu sair daqui, como até as paredes, ou melhor, como qualquer um que estiver na minha frente”.
- Isso não me trás segurança... Posso trazer alguma carne de algum animal? – Eu me afastei um pouco.
“Desde que não seja de pombo... Uns moleques ficam tacando coisa morta aqui... Podiam tacar a mãe”.
- Eu trago algo... Mas agora... Tenho um compromisso... – Eu dei dois tapinhas na grade e segui em frente.
Aquele smeagol sentou e ficou me olhando até eu virar a esquina. O que eu estava fazendo? O que diabos eu estava fazendo?? Conversei com aquela coisa como se fosse um ser humano qualquer, mas ele não é! Eu devo estar delirando. Comecei a focar somente no assassino, depois eu me resolvia com a Lagartixa. Cheguei alguns minutos mais cedo no local combinado, entrei no cano e sentei com as pernas levemente esticadas. Estava com um MP3, então fiquei ouvindo música enquanto esperava ele me dar um susto. Quando deu 17h:29min, comecei a escutar passos vindos do final do túnel – Ah estragou a surpresa – Jeff disse indignado.
- Acabei chegando mais cedo... – Levantei-me e desliguei o mp3 – Ok... Quer passar a me encontrar aqui?
- Nope, aqui é só para você vir atrás de mim. – Ele se virou novamente para a saída do túnel – Vamos! Para o Bosque!
- BOSQUE? – Eu gritei a ponto de quase estourar nossos tímpanos com o eco – Eu só entrei uma vez! Sobrevivi por sua causa!
- Você não está comigo novamente? – Ele fez um gesto com as mãos me chamando – Larga de ser frouxa mulher! Vem! Você não tem muita escolha... – Ele me olha sorrindo – Não é?
Respirei fundo e arfei, não poderia discordar dele, realmente não possuía nada para fazer (Nem louça para lavar tinha). Ao atravessar o túnel, tentei acompanhar os passos dele para ficar sempre ao seu lado. Entramos no bosque, jamais pensei que fosse ter coragem o suficiente para chegar à placa que os Somber Crows prenderam em algumas árvores assim que você fosse muito fundo no bosque.
ENTRADA PROÍBIDA
ZONA DE RISCO
Perdi o folego ao vê-la, Jeff parou também e ficou olhando para a minha cara.
- Está com medo? – Ele riu – Isto é uma placa e não um policial.
- Não, ok... Vamos logo – Mordi os lábios após dizer isso. Estava muito nervosa, todos que atravessaram essa placa, simplesmente não voltaram. É um aviso curto, porém verdadeiro. Seguimos em frente, o som de nossos passos era abafado pela lama, pássaros cantarolavam sua doce melodia pelos ares e havia um cheiro forte de ervas, flores e cascas de árvore. Era gostoso, conseguia me deixar mais calma. Fiquei em silêncio o tempo todo, apenas curtindo a paisagem que me cercava – Para onde está me levando? – Perguntei um pouco tarde – Estamos andando faz um tempinho já.
- Para meu barraco. – Ele disse rindo – Você vai gostar, é bem afastado de tudo.
Barraco? Ele estava me levando para sua casa? Coisa boa não estava por vir.
- Ué? Porque logo para sua casa? – Perguntei nervosa.
- Gosto de lá... Não tenho que ficar me escondendo.
Voltei a ficar em silêncio. Sair correndo? Mas é claro que eu queria! Estava a dois passos para ser estuprada e você acha que eu sou retardada o suficiente para não querer fugir? Eu só não “ralei peito” dali porque sabia que ele iria vir atrás de mim. Chegamos a um tronco atravessado entre dois morrinhos, onde havia um túnel escuro em baixo. Jeff correu até lá e escorregou de rasteira por baixo dele, logo gritou um “SIGA-ME!” e pelo eco, tive noção da profundidade daquilo. Ir ou não ir? Eis a questão. Aproximei-me devagar e olhei lá para dentro, era escuro com uma luzinha ou outra, parecia um grande abismo sem fim.
Escutei um ruído vindo dos arbustos um pouco distante de mim. Algo havia arrastado seu corpo por ali. Um animal do bosque era o mais provável... Ou não? Meu coração acelerou, estava com medo de escorregar, mas estava com medo de ficar lá em cima sozinha. Um rosnado veio pelos ares, aquilo não era um amiguinho da floresta. Olhei para trás novamente e só me deu tempo de ver um vulto de olhos brancos gigantesco vindo na minha direção. Gritei e me taquei de barriga naquele buraco. Mal sabia que aquilo era um escorregador.
Estava escorregando em alta velocidade, gritando quase chorando de desespero. Nas curvas eu rolava e me contorcia toda, parecia um boneco de ventríloquo. Não dava para saber se você estava descendo ou subindo, era tudo tão rápido... Às vezes você se sentia indo para cima, outras vezes parecia que você estava mergulhando na completa escuridão
Quando finalmente vi a luz no fim do túnel, desci rolando após perder o equilíbrio. Rolei por um monte de folhas secas e escutei a risada daquele maníaco, tinha todos os motivos para rir da minha cara. Sentei e sacudi a cabeça, estava tonta e minha visão estava turva. Ele veio até mim e estendeu a mão para me ajudar a levantar.
- Onde estou...? – Perguntei.
- Aonde nenhum humano jamais veio. A parte funda do Bosque. –Ele abriu os braços, como se mostrasse algo impressionante – Bem vinda! Agora você tem todo motivo para gritar!
Quando minha visão voltou ao normal, notei que tudo havia mudado naquele lugar. As árvores pareciam mais escuras, algumas estavam com marcas de garras, outras derrubadas, completamente destruídas. Pássaros não cantavam uma doce melodia, agora, o vento uivava no lugar deles. A luz do sol estava mais fraco, mais cinza, parecia até que estava nublado. As cores das folhas que cobriam o chão estavam escurecidas, pareciam até estar queimadas. Mexi em um montinho delas, revirando a lama, sentindo aquela estranha sensação de pisar em algo seco, porém ao mesmo tempo, molhado. Não me peçam para explicar aquilo, eu só estou descrevendo o que senti, vi e ouvi. Jeff voltou a andar, seguiu para umas pedras cobertas de musgo e saltou por cima delas. Estava ficando cansada de segui-lo, aquilo estava ficando estranho demais... De uma coisa eu sabia:
Não estava mais em casa.
Subi cautelosamente pela pedra e saltei, logo avistei uma casa abandonada, escura e feita de madeira. Jeff subiu os degraus e destrancou a porta, logo entrando e deixando aberta para eu entrar. Fui me aproximando devagar, analisando cada pedaço daquele mausoléu. Janelas empoeiradas, com persianas acinzentadas escondendo o que há dentro. Uma cadeira de balanço faltando uma pluma para desmoronar no chão balançava com o vento ao lado da porta da casa e o telhado parecia faltar apenas um soprinho para voar pelos ares. Porque eu não me surpreendi por ele morar em um lugar assim? Subi os degraus que rangiam a cada passo, logo entrei em sua casa.
Era uma verdadeira zona.
Paredes escuras, que um dia puderam ser azuis bem claros que agora estavam descascando, quatro janelas, um grande tapete preto no chão, uma cama na parede direita que parecia ser um sofá sem encosto, uma escrivaninha na parede esquerda ao lado da janela e próxima a uma poltrona vermelha rasgada. Havia um armário de madeira lá no canto da casa e uma estante cheia de caixas ao lado. Uma lâmpada pendurada por vários fios ficava no teto. Dava para bater a cabeça naquilo.
Fiquei atenta para caso ele queira me pegar por trás, mas na verdade, eu o encontrei deitado nesse sofá que virou cama.
- O que houve? – Perguntei e ele não me respondeu.
Aproximei-me devagar e notei que ele estava usando uma máscara de dormir... ELE ESTAVA DORMINDO? ELE SIMPLESMENTE DEITOU E DORMIU? Não aguentei, abri meu caderno e anotei: SE JEFF TE LEVAR PARA SUA CASA, NÃO SE PREOCUPE, ELE SIMPLESMENTE DEITA E DORME.
Indignada, fui até o lado de fora batendo o pé para ver se ele acordava. Nada. O cara tinha um sono pesado. Ele me trouxe até sua casa porque queria companhia para seu cochilo? Ou acabou a bateria e ele deitou porque não tinha muita escolha? Bufei e fechei o caderno. Ninguém merece. Eu presa em um bosque que parecia o Limbo, esperando o maníaco adormecido acordar.
Sério, tinha que ser eu.
Meus olhos começaram a lacrimejar, não estava chorando, eles começaram a arder de novo e eu estava sem o colírio. Passei a mão no rosto, tentando fazê-los parar de latejar. Não pararam. Sequei as lágrimas com a manga do casaco, quando olhei para a pedra que saltei para chegar aqui...
Havia um Husky sorrindo para mim.
De meus sonhos, criei meu mundo, de meu mundo, criei um universo, de meu universo, criei paradoxos, dos paradoxos, criei histórias e agora contarei a vocês.
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